"Perdi o bonde da esperança"O mundo precisa de mais delicadeza, de graciosidade, ou senão, que esses putos sejam ao menos educados.
Um certo alguém* disse que educação é aquilo que fica depois de se esquecer o que aprendeu na escola. E pelo que vejo, nessa terra
brasilis não fica é nada.
Numa condução lotada, várias senhoras desajeitadamente se equilibravam de pé. Eu com a mão atochada de livros olhei-as e não sabia a qual ceder lugar. Quase todos os sentados eram jovens e nenhum se dignou a oferecer o assento em que estavam.
Que será que acontece? Estou à véspera de meus trinta, mas tive o prazer de ver moços levantarem-se à sentar as moças. E moços e moças darem espaço merecido aos mais velhos. E isso foi ali, num rincãozinho das Minas Gerais chamado Itabira. Será que o tamanho da cidade é inversamente proporcional à sensibilidade e respeito de sua população?
Voltemos todos ao interior do interior!
Tô-certa-ou-tô-errada?
*O certo alguém foi o Einstein... pelo menos dizem que foi ele quem disse.
Toquemos a lírica dum Drummond! Com vocês:
O homem, as viagensO homem, bicho da Terra tão pequeno
chateia-se na Terra
lugar de muita miséria e pouca diversão,
faz um foguete, uma cápsula, um módulo
toca para a Lua
desce cauteloso na Lua
pisa na Lua
planta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
coloniza a Lua
civiliza a Lua
humaniza a Lua.
Lua humanizada: tão igual à Terra.
O homem chateia-se na Lua.
Vamos para Marte — ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em Marte
pisa em Marte
experimenta
coloniza
civiliza
humaniza Marte com engenho e arte.
Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro — diz o engenho
sofisticado e dócil.
Vamos a Vênus.
O homem põe o pé em Vênus,
vê o visto — é isto?
idem
idem
idem.
O homem funde a cuca se não for a Júpiter
proclamar justiça junto com injustiça
repetir a fossa
repetir o inquieto
repetitório.
Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira Terra-a-terra.
O homem chega ao Sol ou dá uma volta
só para tever?
Não-vê que ele inventa
roupa insiderável de viver no Sol.
Põe o pé e:
mas que chato é o Sol, falso touro
espanhol domado.
Restam outros sistemas fora
do solar a col-
onizar.
Ao acabarem todos
só resta ao homem
(estará equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo:
pôr o pé no chão
do seu coração
experimentar
colonizar
civilizar
humanizar
o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene, insuspeitada alegria
de con-viver.