Impressionável Fui até a biblioteca municipal renovar pela enésima vez o empréstimo de uma gramática francesa cuja publicação ocorreu quando ainda nem se tinha por boa técnica o registro de datas.
Sobre o balcão encontrei uma programação dos eventos em torno da semana de aniversário de Drummond. Sempre desconfio das intenções desses encontros, mas resolvi comparecer ao perceber que a palestrante era a Professoura Doutoura Maria Zilda Ferreira Cury. A senhora aí é gabaritada no assunto e, o que mais me interessa, teve a chance de estar cara-a-cara com aquele velho, meu escolhido padrinho.
Encerrada a fala cujo tema era "o poeta e a cidade", procurei-a para uma palavrinha e fiquei num puro estado de graça ao ver nos olhos dela a tensão extasiada de quem teve a oportunidade avançar do papel à carne. Furtei-lhe por vários e ininterruptíveis segundos a SEMsAÇÃO.
Ai sen-si-bi-li-da-de... por que me tomas?
Mais um pouco sobre o que ouvi...
Zilda (já estavamos íntimas, hum? Com direito a troca de e-mails... te mete?) contou que quando chegou ao Rio para a entrevista com o velho-safado (gracejo meu, ressalvo), cuja idade já avançava a casa dos oitenta, foi atendida pela esposa dele. Ela fitou-a e com simplicidade amineirada disse: que linda blusa!
A última coisa em que pensava naquela hora era na roupagem. Disse à senhora que estava muito ansiosa e nervosa para o encontro com seu marido. Ela, tão simples quanto ele, achou demais aquele entusiasmo e, falando com apoio dos ombros interjeitou: mãhn...
Estava armada de perguntas, técnicas e cobranças de pesquisadora. Não bastasse, revirara material de que o poeta queria se livrar. Como aquelas cartas que a gente escreve e depois se envergonha ao revê-las ao se dar conta da falta de maturidade e de algumas contradições com o já.
Tratava-se das publicações de "A Revista" e de coisas dos cinco anos precedentes. O trabalho da pesquisadora envolvia aquilo que não havia sido publicado em livro e Drummond apavorou-se ao saber que ela resgatara t-u-d-o. Na tal fase, idos dos anos 20 a 25, a modernidade urge e o poeta chega a invocá-la; anos depois ele faz versos de entusiasmada repulsa àquilo que fora seu "desejo". Zildinha conta que ele escreveu que Itabira precisava se modernizar, chegar a ela uma mineradora, sinal de avanço. O que é o avesso de outros versos posteriormente consagrados como os que exorcisma a Companhia Vale do Rio Doce que desintegra Itabira levando para o mundo o minério de ferro encrustrado no Pico do Cauê.
Desde marcada a entrevista Drummond exibia preocupação com a morte. Agendou-a ressalvando que era pretensão demais de um octagenário marcar qualquer coisa para o amanhã. Dois anos depois disso ele perde a filha e junto se perde. Morre de amor.
Fim...