Garimpando aventura...
O dia no interior começa cedo. No primeiro cocoricó pulei da cama. Tinha que tomar o trem e partir de Itabiracity para Antony Days. Depois de quatro anos de estudo achatando a popa num banco d'uma faculdade de Direito, fui urgentemente solicitada por uma tia. Reuni todo teoria e enfiei na sacola, para, no fim das contas, passar o dia comprando torneiras, pias, tanques, seladores e toda sorte de material para dar jeito numa casa em estágio de decomposição.
Arrombar porta, contratar chaveiro, pedreiro, marceneiro, serralheiro. Resolvido. Pronto e acertado. Tudo muito dinâmico e fácil quando o dinheiro não sai desse bolso e vem uma fonte lÃquida e segura. Eu negociava e a titia fazia os cheques.
No fim do dia saÃmos de Novera e voltamos para Antony Days. Chovia e a estrada que em tempos normais já é perigosa, estava cheia de armadilhas, das quais alguns não se desvencilharam. Nessa conjuntura titia disse para ficar essa noite por lá, já que pretendia voltar de motocicleta, assim, sairia com mais calma na manhã do dia seguinte.
Como a obediência não é uma de minhas virtudes, montei na magrela e avisei: vai indo pra sua casa titia, daqui a pouco chego lá! Ao chegar no trevo da cidade, num surto máximo de minha loucura, resolvi seguir viagem ao invés de hospedar-me por ali.
Puxei o acelerador ao máximo e fui ziguezageando desviando dos pingos afiados da chuva. Hora ou outra via uma vÃtima debruçada em meio a ferragens nas curvas da estrada. O corpo estremecia, não sei se só de medo. A noite já estava chegando sorrateira, dissimulada pelas nuvens negras da tempestade que se armava.
Durante o trajeto a motocicleta parou por duas vezes. Na primeira, num lugar movimentado, onde me faziam companhia as dúzias de cruzes deixadas pelos familiares dos que ali jaziam.
Empurro pra cima, pra baixo, manobro, pulo por diversas vezes em cima da moto, ela tosse e não funciona. Subi o mais que pude a serra, empurrando a magrela. Soltei-a morro a baixo e, enfim, ligou. Tomei novamente o sentido da estrada e segui em frente.
Alguns quilômetros adiante parei para telefonar e avisar que estava a caminho. De novo a branquela não cooperou. Deixou-me na mão e eu tive que inventar forças para empurrar mais um tanto montanha acima e descer desembestada para que funcionasse. Sucesso.
Enfim chego na parte pitoresca: estrada de terra, cheia de precipÃcios, sabia a muita aventura. O lugar não tem pavimentação e tampouco conservação. Estava me sentindo num laboratório para rally.
A noite com um frio polar e negra como ébano cercou minha volta. Enquanto pude andei de pé sobre a moto porque os buracos fundos davam pancadas que a carne de meu traseiro não amortecia. Na chuva e lama abundante deslizava e perdia o rumo da estrada patinando no barro.
Abria e fechava a viseira do capacete procurando meio de enxergar alguma coisa (inda não descobri porque aquilo não tem limpador). Quando raramente passava um carro, a luz era tão intensa que não sabia se realmente era um outro veÃculo ou se eu já desembocava no paraÃso depois de ter me perdido em algum buraco.
Aà ela resolveu parar de vez, e escolheu o lugar. Num vale fundo, na boca do garimpo, conhecido por seus destros atiradores, fiquei empacada. Ali eu, moto, chuva, barro, muito mato e bichos que eu não reconhecia, assim, no escuro.
Nada funcionava. Não tinha um farolzinho sequer que desse sinal de vida. Voltei a sapatear no barro arrastando a motocicleta junto. Esperei e não passava um carro sequer. Só ouvia via os vagalumes passeando pelo mato, alguns latidos ao longe e uns barulhos vindos da mata.
Não tinha sequer vontade de xingar. De rezar muito menos. De repente minha veia malabarÃstica saltou e eu fiquei de pé sobre o biciclo. Coloquei o celular para procurar rede digital e empunhava-o pra cima, como uma espada. Houve um lampejo de sinal e consegui falar o suficiente com meu pai: na boca do garimpo, moto quebrou. Perdi o contato.
Depois de pouco mais de uma hora chega o resgate. Meu pai e minha irmã com seu futuro marido. Abraços e muita adulação. Ainda consegui fazer meia dúzia de piadas depois dessa. Em casa minha mãe esperava com uma saudação clássica: eu não avisei pra não vir de moto?
Tomou? :-P Eu não me privaria dessa aventura... senão, com que preencheria meu monótono diário de férias? Alguém afim de um passeio na minha garupa?